Sobre o novo e belo livro da poeta Marize Castro
As formas do feminino
A tentativa de criar o novo leva muitos poetastros a recorrer a expedientes formais que, já há muito datados, acabam produzindo o efeito oposto. Muitos poetas brasileiros parecem não atentar para o fato de que Pound e Cummings já partiram há muito tempo; emulando o que em décadas passadas foi por outros emulado, conscientemente ou não se reduzem a epígonos dos epígonos, condenando a si mesmos a um esquecimento quase que imediato. O que não percebem, afinal, é que nada reafirma tanto o talento poético quanto a capacidade de renovar temas tradicionais a partir de uma dicção límpida, isenta de artificialismos e afetações supostamente vanguardistas. Um exemplo dessa competência está em Lábios-espelhos (Una, 2009), livro mais recente de Marize Castro.
Quando escrevi sobre o livro anterior de Marize, Esperado ouro (2005), elenquei um conjunto de características que ressurgem na nova obra − o domínio formal, um lirismo que tende para o excesso, a centralidade do desejo; o que isso indicia é precisamente uma escritora que conhece as suas fontes e que se dedica seriamente à pesquisa poética, buscando a renovação do tratamento de sua matéria lírica. A segurança e a maturidade da escrita dessa poetisa natalense se evidencia na forma como ela explicitamente reconhece seus parentescos literários. Em “Hilda”, escreve: “Assombra-me o mesmo nume. / Uso o mesmo perfume: Nazareno Gabrielli. // Fui feita da mesma seiva, da mesma pele”; “A Poesia” se encerra com este dístico: “A Poesia deve ser estiagem, flor, perfume de criança / poemas de Emily, contos de Mansfield”. Se Marize Castro bebe dessas águas, é para renovar as suas fontes: tão mais alto soa a sua voz que nela não interferem ressonâncias alheias.
A propósito, Marize me parece um caso que representa plenamente a superação das limitações outrora impostas pelo termo ‘poetisa’. Se, em tempos passados, era compreensível a resistência das escritoras a essa palavra − que portava todo o peso daquelas mulheres que, influenciadas por uma educação sexista e opressora, limitavam-se a produzir uma poesia inócua e açucarada, meramente composta de lugares-comuns −, hoje não faltam autoras que se dedicam à elaboração de uma escrita que trata ostensivamente da experiência feminina, mas de uma maneira isenta das amarras domesticadoras de outrora. A poesia de Marize Castro canta um feminino livre e libertário, que cinicamente acolhe os estereótipos para superá-los de forma avassaladora − de onde a força de um poema como “Íntima”, em que o discurso da submissão é subvertido por inteiro: “Dentro de ti / a verdadeira vida / (nenhuma morte). / Não mais fugirei. / Sou tua: íntima, úmida, sã. / Beijo teus pés. / Como teu corpo. / Bebo teu sangue. / De nada me salve, / Senhor/Senhora”. Como subjugar essa mulher que, no ato da entrega, se torna forte a ponto de, pela força do desejo, atingir a plenitude?
A obra de Marize Castro é necessária: trata-se de um alento renovador em nossa tradição lírica que, enquanto conquista estética, concede voz a formas de subjetividade contemporâneas, mormente no que tange às configurações do feminino. Pujante e arrebatadora, selvagem e indomável, a poesia de Marize Castro celebra uma mulher que sabe encerrar, em si, o absoluto.
por Henrique Marques-Samyn Vínculos a esta entrada
Etiquetas: Marize Castro, Poesia brasileira contemporânea

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